Estadual Central: eu era feliz e não sabia

Final da década de 60. Eu tinha 15 anos, o canudo do curso ginasial nas mãos e um monte de ideias na cabeça. Iniciava o curso científico no Colégio Estadual Governador Milton Campos. Estadual Central. Da Serra, onde eu morava, até o colégio era chão pra encardir. Eu fazia o percurso em duas etapas. A primeira, a pé. Saía de casa cedo e desabalava rua do Ouro abaixo até a avenida do Contorno, onde iniciava a segunda etapa, de ônibus. A bordo do Getúlio Vargas, eu me refazia da caminhada. Chegava inteiro ao colégio. Na volta pra casa era o inverso. Eu embarcava no Getúlio Vargas em direção à Savassi, descia nas imediações da Praça ABC e encarava a pé a subida da Serra: Cláudio Manoel, Estevão Pinto, Caraça, Serranos. Eu poderia encarar a rua do Ouro, mas a subida pela rua Estevão Pinto tinha um apelo irresistível: o Colégio Sacre Couer de Marie, de onde irrompiam, após o término das aulas, as colegiais mais lindas de Belo Horizonte, “naquela idade em que as moças adolescem e os moços adoecem”. Colégio Sacre-Couer de Marie à rua Estevão Pinto, bairro Serra (crédito: Google Street View) Ainda bem que nos sábados tinha aula de Educação Física. E futebol depois da aula de Educação Física. E caminhada até o centro da cidade depois do futebol. Era o que nos salvava, a mim e a outros pobres moços. Descíamos fazendo estardalhaço. Contando vantagens, lembrando os principais lances do futebol, jogando conversa fora. Descíamos ora por Espírito Santo, ora por Rio de Janeiro, quase sempre por São Paulo. Porque a preferência pela rua São Paulo? Sei não. Talvez por ser a ligação mais direta, ou quem sabe pelo fato de seguirmos junto à mureta do córrego do Leitão, que naquela época ainda corria a céu aberto por lá. O fato é que descíamos livres e soltos como as águas do Leitão. Até o ponto em que o córrego infletia para os lados da rua Padre Belchior. Aí atravessávamos Augusto de Lima e iniciávamos a subida de São Paulo em direção à avenida Amazonas. Na esquina de Tupis eu me despedia dos colegas. Quebrava à direita, passava em frente ao saudoso Cine Jacques, cruzava as ruas Rio de Janeiro e Espírito Santo e seguia em direção à avenida Afonso Pena. Cine Jacques à rua Tupis, na década de 60 (Foto: divulgação “Estado de Minas”) O ponto do Serra era logo adiante, em frente à Lojas Gomes, onde eu ficava namorando os discos dos Beatles que um dia iria comprar. Se Deus quisesse. Mas o que Deus queria mesmo é que o guerreiro fosse pra casa. E o guerreiro obedecia. Chegava e ia direto pra mesa. Depois pra cama, que ninguém é de ferro. Aí eram os planos para a noite, para os bailes de então. Às vezes dois ou mais no mesmo dia. O meio de locomoção? Os pés, naturalmente. Desconfio que vem desta época o meu gosto pelas caminhadas. Foto de abertura: Colégio Estadual Central na década de 60 (divulgação Revista Encontro)