O clamor de um “rio invisível”

No último domingo fiz a minha caminhada na avenida Prudente de Morais (para quem não sabe, nos domingos a pista da avenida no sentido centro-bairro é fechada ao trânsito de veículos, desde a rua Joaquim Murtinho até a rua Acaraú).

Local plano, gente bonita, sol e sombra na medida certa, pista sem obstáculos, tudo de bom!

Domingo na Avenida Prudente de Morais – Foto: Robert Serbinenko/IVPIX

Melhor ainda porque voltei aos tempos de criança, quando ia à casa de meus avós na rua Bernardo Mascarenhas, de onde divisava não a avenida, mas o córrego do Leitão, que ainda não havia sido canalizado.

Naquela época – corriam os anos 60 – acelerava-se o processo de verticalização de Belo Horizonte. Não só o Leitão, mas também outros córregos que cortam a chamada Zona Urbana já estavam canalizados ou prestes a ser canalizados.

Eu era muito criança para saber o que significa canalizar um curso d’água. Só mais tarde vim a saber que isto poderia ser evitado se o processo de ocupação urbana não se desse de forma tão desordenada, como acontece na maioria das nossas cidades.

Mas voltemos ao último domingo. Eu me lembrava de ter lido algo a respeito do córrego do Leitão no curraldelrei.blogspot e ao chegar em casa fui direto ao computador. E lá estava toda a história.

Século XIX. Leitão e Capão. Duas fazendas e suas benfeitorias, plantações, engenhos, olarias. Duas famílias: Cândido da Silveira e Ferreira da Luz. O começo de tudo.

A virada do século. A necessidade de abastecer de víveres a capital recém-inaugurada. A desapropriação das terras. A Colônia Agrícola.

As décadas de 20 e 30. Os pioneiros em busca de terra e trabalho. As primeiras ocupações. O bairro Santo Antônio.

Os anos 40 e 50. A reforma da Fazenda do Leitão. O Museu Abílio Barreto. O início da ocupação da margem esquerda. A administração JK. O bairro Cidade Jardim.

Vista do bairro Cidade Jardim em 1955 (à esquerda o córrego do Leitão, ainda não canalizado) – Fonte: APCBH – Acervo José Góes

Os anos 50 e 60. O início da verticalização. As favelas: Querosene, Alvorada, Morro do Papagaio.

Os anos 70. O crescimento desordenado. A falta de saneamento. A canalização do córrego do Leitão. A avenida Prudente de Morais.

Muita história, não é mesmo? Qualquer domingo desses eu volto lá na avenida, colo o ouvido no asfalto e anuncio pra todo mundo: estou escutando o clamor de um “rio invisível” que corre aqui embaixo, venham escutar também!

Mas quem não quiser ficar só na escuta pode clicar aqui e conhecer um pouco mais dessa história.

Imagem de abertura: antiga sede da Fazenda do Leitão, em 1940 – Fonte: Arquivo Público Mineiro / Acervo do Dr. Vicente de Andrade Racioppi

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  • Fernando Gusman

    Jose Walker,
    Este artigo realmente é incrível. Escrever algo sobre uma verticalização e uma cidade antiga ao mesmo tempo faz todo sentido. Espero que possa continuar tocando as pessoas com suas palavras e frases.

    • José Walker

      Que bom que você gostou Fernando!
      De fato, assim como os “rios invisíveis” sob o asfalto, a “cidade antiga”, hoje engolida pela verticalização, continua a existir dentro de nós: são as nossas recordações.

  • Frieda Kiefer

    Jose Walker, Brigadim pela informação. Eu também não sabia que a avenida fica fechada aos domingos. Mais uma opção para as nossas caminhadas!
    Revitalização dos rios: um sonho cada vez mais distante… mas não vamos perder as esperanças. Quem sabe um belo dia a humanidade, principalmente a brasileira, não acordará para essa questão? Estou Eri estar aqui para ver de perto!
    Parabéns pelo Blog! Nota 10!

    • José Walker

      Obrigado pela participação e pelos elogios Frieda!
      É muito bom saber que pessoas sensíveis como você estão seguindo o blog e o que é mais importante, opinando.
      Quanto à revitalização dos nossos rios, como você mesma disse, não vamos perder as esperanças…
      E enquanto isso não acontece, vamos curtindo os exemplos de países como Singapura, que transformou um imenso canal de concreto em parque urbano, como eu já mostrei aqui no blog (veja no link abaixo): http://caminhada.org/2016/11/02/parque-municipal-de-belo-horizonte-o-maior-parque-urbano-da-america-latina/.
      Grande abraço!

  • Não sabia que a Prudente era fechada aos domingos para as pessoas caminharem.
    Muito bom isso!!!
    Bom artigo!
    Abraços!

    • José Walker

      Olá Tomé, que bom que você gostou!
      Eu gostei mais ainda, porque divulguei algo interessante que você ainda não sabia.
      Grande abraço e obrigado pela participação!