Aventura na Serra do Curral

Sábado desses, às vésperas de completar 72 anos, cometi o desatino de escalar a Serra do Curral pelo lado de Nova Lima. Não fui sozinho, é claro. Fui a reboque de um jovem casal na faixa dos 30 e de um moço recém-chegado na faixa dos 60: filho, nora e irmão. Partimos do Parque Serra do Curral às oito. Sol entre nuvens, sem previsão de chuva. O tempo favorável e as boas condições da estrada de acesso eram indício de uma bela caminhada. E foi. Até o momento em que meu irmão, arvorando-se em guia, deixou a estrada e disse é por aqui. Aqui era uma trilha cercada de mato por todos os lados, mas o nosso guia, dizendo que não havia perigo, tomou a dianteira e não tivemos outra alternativa senão segui-lo. Em alguns trechos, eu mal enxergava o chão e tive que lançar mão de muita artimanha para não me estrepar. O pior foi quando acabou a trilha e nos deparamos com uma descida de água pluvial em degraus de quase metro de altura. Ou escalávamos aquele despropósito de escada ou voltávamos ao ponto de partida depois de já havermos percorrido boa parte do trajeto. Não voltamos. Venci o desafio, mas a fatura não demorou a chegar. Meu joelho esquerdo, que já havia melhorado de antiga lesão, voltou a incomodar. Só pude seguir adiante depois de converter em bastão um galho de árvore que cruzou o nosso caminho. E assim, com o auxílio desta perna adicional, consegui chegar ao topo e iniciamos a caminhada pela crista da serra. Com sucessivas paradas para fotos, diga-se de passagem: é lá do alto, espichando-se o olhar, que se entende porque Belo Horizonte. Do lado contrário, o de Nova Lima, outra paisagem. Em primeiro plano, as instalações de uma grande mineradora e os vestígios de suas atividades, inclusive o lago formado por uma profunda cava de mineração. Ao longe, a imensidão do mar de morros de Minas. De vez em quando, alguns moços passavam por nós. Correndo. O que fazíamos pé ante pé, tomando todo o cuidado para não tropeçar e cair, aqueles malucos faziam aos saltos, de pedra em pedra. Nova modalidade de esporte radical? Sei lá. O que sei é que depois de quase duas horas sobrevoando Belo Horizonte, iniciamos a descida da serra. Uma pirambeira. Em alguns trechos, eu descia escorregando. Sentado. Em outros, aos trancos e barrancos e dizendo pra mim mesmo seja o que Deus quiser. E quis Deus que sua criatura chegasse, sã e salva, ao fim da linha. Que veio a ser uma clareira junto à Portaria Sul do Parque das Mangabeiras. Senti-me nas alturas, embora já estivesse lá embaixo. Mas vou avisando: se me convidarem para repetir a dose, vou dizer não, muito obrigado!