A avenida Silva Lobo de ontem e de hoje

Quando eu me casei, em 1984, fui morar num apartamento alugado na esquina das ruas Pilar e Santa Cruz. Grajaú. Assentada a poeira pós-mudança, uma das primeiras providências que tomei foi buscar um local onde pudesse fazer as minhas caminhadas. Eu havia me instalado num alto de morro e se quisesse caminhar a seis por hora, como de costume, teria que encontrar um sítio menos acidentado. Após algumas buscas infrutíferas na vizinhança, resolvi aumentar o meu raio de ação. Fui descendo a rua Xapuri, descendo, descendo. E assim, uma esquina após a outra, acabei esbarrando na avenida Silva Lobo. Eu havia encontrado o meu lugar. E ali passei a fazer as minhas caminhadas. Nos dias-feira eu caminhava bem cedo pela manhã. A conta de chegar em casa, tomar uma ducha e correr para o trabalho. Os fins de semana eram mais tranquilos e as caminhadas tinham um sabor especial. Havia na avenida um comerciante que criava frangos. E abatia na hora. A gente escolhia a vítima e zás, levava pra casa o almoço. Alguns prédios de pequeno porte, outro tanto de casas e lotes vagos, poucos carros. Era assim a Silva Lobo das minhas andanças naquela época. Só havia um problema para quem morava no alto do Grajaú como eu: a subida da rua Xapuri na volta pra casa. Penava. Até que um dia resolvi experimentar um caminho alternativo e me dei bem. Passando pela rua Contendas, na parte baixa do bairro, vi um prédio em construção e falei comigo mesmo quem sabe. Procurei o construtor e soube: havia uma última unidade à venda. Seis meses depois eu recebia as chaves de um lindo apartamento. Um dois quartos pra chamar de meu. Fiquei livre do aluguel e da subida da rua Xapuri. E continuei a caminhar na avenida. Até 1991, quando eu e minha esposa, sentindo necessidade de mais espaço e segurança para os dois primeiros filhos e para um terceiro que pretendíamos encomendar, compramos um três quartos espaçoso na Floresta. Com área de lazer e porteiro físico 24 horas. Hoje, 41 anos depois, voltei à Silva Lobo. Fiquei impressionado. É verdade: sinalizaram a pista de caminhadas, criaram áreas de lazer, plantaram árvores, bicicletário. Em contrapartida, espigões, centros comerciais e grandes lojas tomaram conta do lugar. Até faculdade instalaram por lá. Resultado? Aumentou o trânsito de veículos, o barulho, a poluição. Ainda bem que certas tradições se mantêm. Não o abate e comércio de frangos, é claro. Mas carroças ainda circulam por lá. Eu vi.