A praça que andava esquecida

Praça Raul Soares. Domingo. Pista fechada ao trânsito de veículos. No asfalto, linhas retas, figuras geométricas, cores vivas. Caminho pela pista. Uma volta, duas, três. Finalmente encontro a um canto, soltas, as palavras “desenho – muralização – resistência cultural – Kene Sagrado e proteção” e logo abaixo, as assinaturas Sadith Silvano e Ronin Koshi. Mergulho fundo no geometrismo das formas, na mística das cores. Reverencio o trabalho dos artistas: ritual sagrado da comunidade Shipibo Konibo da Amazônia peruana. Volto à tona. Numa das empenas do Edifício Paula Ferreira alguns símbolos e elementos gráficos parecem saltar de dentro do prédio. É o incrível trabalho do artista Edgard Bernardo dos Santos, mais conhecido no mundo graffiti como Ed-Mun. Obra do artista belorizontino Ed-Mun no Edifício Paula Ferreira Ambas as intervenções foram realizadas durante a 6ª edição do Circuito Urbano de Artes (CURA), cujo grande mérito, desta vez, foi trazer de volta aos holofotes a Praça Raul Soares, que andava meio esquecida. O que é lamentável. O formato circular, único numa cidade de traçado ortogonal, a simetria dos elementos que a constituem e a originalidade do piso em mosaicos marajoaras são características que por si só justificariam maior atenção de nossa parte. Mas não é só. Há outros pontos a serem destacados: o fechamento e a requalificação de alguns quarteirões adjacentes, a transformação de antigo posto de combustíveis em ponto comercial perfeitamente integrado à paisagem local e a reforma do imponente Edifício JK. Praça Raul Soares com Edifício JK ao fundo, após a reforma Portanto, argumentos não faltam para quem quer curtir o domingo num ambiente descontraído e cheio de novidades. Os outros caminhantes, corredores e ciclistas que encontrei pelo caminho que o digam. É verdade, algumas melhorias precisam ser implementadas para tornar a praça ainda mais atraente. Nada que requeira grandes investimentos. A fonte no centro da praça, por exemplo. Dizem que após a última reforma jorrava música clássica. Além de água, naturalmente. Hoje está inativa. O antigo Cine Candelária também poderia ser contemplado. O que temos hoje é apenas o esqueleto do prédio que um dia abrigou o cinema. Dizem que vão restaurar. Resgatar o passado. Tomara. E o templo da Igreja Batista? Talvez não seja uma edificação tão importante sob o ponto de vista arquitetônico, mas ficaria bem melhor se passasse por uma repaginada. Quem sabe? Tudo isso eu observei ou vislumbrei naquele domingo durante uma hora de caminhada. No final, fiz um pit stop ali pertinho, no Mercado Central. Pra não perder o costume. Fotos: Lude G.B.